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Desromantizando pt2

Percurso profissional ou labirinto? Está tudo bem.

A vida profissional não é um conto de fadas. Muito menos uma linha reta sempre a subir, cheia de glitter, propósito e promoções mágicas. É mais como uma montanha-russa sem cinto de segurança. Eu já odeio montanhas-russas… agora imaginem sem cinto.

Hoje venho aqui para desromantizar essa ideia de “realização profissional” que nos vendem. Nem sempre (ou quase nunca) acontece. E sabem que mais? Está tudo bem. Se contigo deu certo, fico genuinamente feliz — mas se não deu, está tudo bem em mudares de trabalho mais do que uma vez. É algo que vais ter de fazer praticamente a tua vida inteira, por isso convém que estejas minimamente satisfeita.

Tudo começou com o nosso amigo, o gigante: bullying. Na escola era inadmissível usares roupa “falsa” ou não teres as mesmas possibilidades que os teus colegas. Isto por si só já merece um post. Aos 15 cansei-me. Solução? Trabalhar.

Trabalhar??? 15 anos? Pera! Sim não estou a dizer para esperares estou a referir-me à fruta.

Literalmente: apanha da pera. O primeiro emprego de quase toda a gente do Carregado KKKKKKK Exaustivo. Antes mesmo de começar já me diziam que eu não ia aguentar, mas guess what: aguentei até ao fim da época e ainda voltei nos anos seguintes. Hoje percebo que aquilo é escravidão ao mais alto nível. Mas naquela altura… fiz 800€, comprei uns Vans aos quadradinhos cor-de-rosa e fui jantar com os meus amigos da pera. MILIONÁRIA.

Alguém pediu uma dose extra de pera? Ai, realidade… digo eu.

Aos 16, quase 17, entrei para o McDonald’s. O dinheiro da pera não durou para sempre, e o secundário veio com responsabilidades novas (e despesas também). Estive lá até ao fim do secundário e ainda parte da universidade. Spoiler: fiz universidade. Foram anos de correria, batatas fritas e muito “é só mais um turno, eu consigo”. Aprendi e cresci muito: ritmo, responsabilidade, lidar com pessoas… e com pedidos à 1h59 da manhã de quem claramente já devia estar a dormir.

Entretanto chegou a tão sonhada universidade. E com ela… um balde de água fria. Pensei que ia ser um mundo novo, onde tudo faria sentido. Mas não foi. A palavra que usaria para descrever? Frustrante.

Desisti.

E não, não foi um drama. Foi uma libertação. Porque é completamente irreal esperarem que, aos 18 anos, a gente saiba exatamente o que quer fazer com o resto da vida. Ou que sequer consiga, sem qualquer tipo de apoio. Ainda hoje, com quase 23, continuo a tentar perceber. Sim, tenho sonhos grandes — amava ser neurologista. Mas sei que nem sempre sonhar é suficiente. O acesso à educação, o cansaço mental, a realidade da vida… o tempo, a idade, tudo pesa. Talvez um dia. Talvez não. E sinceramente? Está tudo bem.

Acham que acabou por aqui? Ahahah. Por uma cunha (amém aos amigos dos amigos), fui trabalhar umas semanas como rececionista num escritório de uma advogada. Trabalho? Incrível. Ambiente? Horrível. Enfim, a vida adulta. Primeiro choque de realidade. Acabou por acordo mútuo. Mas acham que foi mau? Foi ótimo. Aprendi muito, cresci e — pasmem — metendo isso no currículo entrei numa empresa do ramo farmacêutico! Técnica administrativa e inspetora de qualidade de medicamentos. O trabalho era super interessante, o salário excelente… Tinha tudo para ser O trabalho. Mas e o ambiente? Pessoas com idade para serem minhas avós a fazerem-me a vida negra. Saúde mental não tem preço.

Conseguiram. Chorava todos os dias antes de ir trabalhar. Até que, passado 10 meses, fui-me embora. O trabalho era 10, o ordenado era 10, mas a saúde mental estava a descer para um 0.

Entretanto abriu-se mais uma porta: fui para uma fábrica como assistente administrativa no setor de logística. Enquanto ainda dava assistência ao emprego anterior, trabalhava das 6 da manhã até à meia-noite. No meio de uma mudança de casa, estava desmaiada. Literalmente. Gostei do trabalho, havia desafios, mas… o ambiente? Outra vez infernal. Comecei a questionar: sou eu o problema?

Mas não. Apenas tive dedo podre nos empregos — ambos eram substituições: uma por depressão, outra por gravidez quase em burnout. Entrei direto na boca dos lobos. Aguentei o que pude. Era nova demais para enlouquecer por causa de um trabalho — como vejo tanta gente a fazer. E o ordenado? Miserável. Como quase tudo, neste momento, em Portugal.

Depois de tudo isso, tirei um tempo para mim. Fiz um curso de assistente de gestão de recursos humanos. Gostei, aprendi… mas abrir portas? Zero. Ainda assim, valeu a pena. Conhecimento nunca é demais.

Quis mudar de área. “Big girl jobs”? Pausa. Candidatei-me a umas lojas novas de roupa que iam abrir, daquelas onde temos de andar sempre bem vestidas, bem maquilhadas e com ar de quem nunca chorou no balneário do trabalho. Porque, no fundo, somos o que está à venda, não é? Supérfluo? Sem dúvida. Mas fui aceite. E estava feliz.

Às vezes só precisamos mesmo de uma coisa mais leve, mais superficial. Mas o vento touxe-me para França. E nem sequer comecei nesse trabalho novo.

E agora? Fica para outro post eheheh

Tudo isto só para te dizer que a vida profissional não é o que parece nas redes sociais. Por cada “consegui o emprego dos meus sonhos”, há 10 “quero desistir todos os dias mas preciso de pagar as contas”.

Trocar de emprego não é fracasso. Chorar por causa do trabalho não é fraqueza. Descansar ou faltar não é preguiça. Não saber o que queres ser ainda — também não.

Porque nem sempre estamos realizados. Nem sempre sabemos o que queremos. Nem sempre aguentamos.
E tudo isso é normal.

Respira, querido leitor. Está tudo bem.
Bia

1 comentário em “Desromantizando pt2”

  1. girllll, you called me OUT with this one 🤡
    É sempre bom sabermos que não estamos sozinhas e apesar de cada vez mais se falar da saúde mental, ainda não é suficiente.
    Obrigada pelas tuas palavras Bia ❤️

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